Tensões geopolíticas e domínio das big techs aceleram movimento para manter dados sensíveis dentro do país; governo federal lança ‘nuvem soberana’ para garantir segurança das informações públicas
Com o acirramento das tensões geopolíticas, monopólio das big techs e crescente disputa tecnológica entre grandes potências, o governo e as empresas brasileiras têm buscado alternativas para repatriar seus dados, visando reduzir riscos de vigilância estrangeira, fortalecer a soberania digital e ampliar a proteção de informações estratégicas.
No Brasil, a preocupação com a soberania dos dados ganhou destaque nos últimos dois anos, principalmente com a eleição de Donald Trump para seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos. As guerras entre a Rússia e a Ucrânia e o conflito entre Israel e o Hamas também reforçam o ambiente de insegurança.
O movimento é global. A geopatriação dos dados, ato de transferir os dados e aplicações da empresa nuvens públicas globais para opções locais, foi identificada pelo Gartner como uma das 10 tendências tecnológicas estratégicas para 2026.
“Existem preocupações sobre a soberania das informações e sobre as leis de cada país. Empresas que têm receio de que países, como EUA e China, tenham algum problema geopolítico geralmente buscam provedores locais onde estariam mais protegidas”, explica Henrique Cecci, diretor sênior de pesquisa do Gartner.
Estimativas da empresa de pesquisa apontam que 75% dos clientes na Europa e no Oriente Médio devem buscar soluções locais de cloud (nuvem) nos próximos cinco anos, contra 5% atualmente. Embora o Gartner não apresente projeções específicas para o Brasil, Cecci afirma que a demanda por aqui também deve crescer de forma acelerada, ainda que em ritmos diferentes entre cada região.
Crescimento acelerado
A brasileira Eveo tem se beneficiado da tendência de geopatriação dos dados e da busca por serviços mais baratos na área de tecnologia. Com a maior procura por nuvens privadas locais, a empresa de cloud deve dobrar de tamanho este ano.
Segundo Lucas Vanzin, cofundador e Co-CEO da Eveo, a nuvem pública conta com agilidade e elasticidade para garantir capacidade de armazenamento extra sob demanda às empresas, como na Black Friday, que vai acontecer na próxima sexta-feira (28). Já a cloud privada, por ser local e dedicada a uma única organização, garante maior controle, personalização e segurança, a um custo mais baixo.
De acordo com estudo Cost Reality Report 2025 (relatório sobre a realidade dos custos em 2025, em tradução livre), da Eveo, empresas brasileiras podem reduzir em até 60% os custos totais de propriedade ao repatriar sistemas da nuvem pública, geralmente oferecido por gigantes de tecnologia, para ambientes privados ou híbridos.
Corte de custos
O estudo analisou faturas de 30 empresas brasileiras de médio e grande porte ao longo de 12 meses, simulando três cenários: nuvem pública, privada e híbrida. As projeções consideraram um período de cinco anos, câmbio entre real e dólar, e inflação média sobre o preço da energia.
“Como o mercado está crescendo muito, tem espaço para todo mundo. A gente até sugere a nuvem pública para o cliente que tem uma carga maior. Como especialista, a gente sabe a limitação de cada opção”, diz Vanzin.
De acordo Igor Santos, executivo da unidade de negócios de armazenamento e proteção de dados da IBM Brasil, as empresas não só devem avaliar a adoção de múltiplos provedores de nuvem, mas ter resiliência no caso de falhas.
“O cenário geopolítico atual reforça que segurança não deve ser tratada como um componente isolado, mas como uma estratégia de arquitetura. Além disso, a segurança moderna parte do princípio de que incidentes podem acontecer, e a prioridade passa a ser a capacidade de recuperação rápida”, analisa.
Nuvem do Governo
A repatriação dos dados não se restringe à iniciativa privada. Para reforçar a segurança dos dados públicos, o governo federal lançou em junho a chamada “Nuvem do Governo”, operada pelas estatais Empresa Nacional de Inteligência em Governo Digital e Tecnologia da Informação (Serpro) e Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência (Dataprev).
O modelo prevê mais de R$ 1 bilhão em investimentos e conta com a parceria de gigantes de tecnologia, como AWS, Huawei, Google e Oracle.
De acordo com Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), a “nuvem soberna” vai atender principalmente informações que exigem proteção reforçada, como dados fiscais, bancários, empresariais e industriais.
“Atualmente, temos 11 órgãos fazendo a migração de seus dados para essa nuvem de governo e temos o objetivo de repatriar de 20% dos dados até o final da atual gestão”, afirma Rogério Mascarenhas, Secretário de Governo Digital do MGI.
Segundo Mascarenhas, a iniciativa também está sendo desenvolvida em outros países, com destaque para a União Europeia.
“Em um momento geopolítico complicado, o país avança em um modelo que garante que os dados estejam no Brasil e hospedados em empresas públicas de TI. Desta forma, caso ocorra algum problema, como o rompimento de um cabo, por exemplo, os brasileiros não serão prejudicados, os serviços públicos terão continuidade”.
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