Análise de 75 milhões de vagas de emprego na área de tecnologia indica que o número de habilidades exigidas nos candidatos caiu 25%entre 2024 e 2026; diretores de TI no Brasil dizem como escolhem novos profissionais para as equipes
Em média, o número de habilidades exigidas em anúncios de vagas globais para profissionais de TI caiu cerca de 25%, de 30 para 21, enquanto a experiência exigida em funções da área subiu de 4,6 para 4,8 anos. As duas tendências podem indicar uma maior demanda por especialização, em nichos como design de arquitetura de dados, e uma menor procura por currículos generalistas, voltados a campos mais amplos do mercado, como desenvolvimento de software.
Esse é o cenário mostrado por um estudo da Revelio Labs, multinacional de pesquisa e dados sobre a força de trabalho, que levou em conta 75 milhões de vagas de emprego publicadas em todo o mundo, na área de TI, entre 2024 e 2026.
De acordo com o relatório, a exigência por competências em desenvolvimento de software e aplicativos, por exemplo, foi encontrada em apenas 16,5% e 6,4%, respectivamente, entre as posições em aberto em 2026, uma queda em relação aos 25,4% e 14%, registrados em 2023.
"Enquanto isso, demandas específicas por segmentos como aplicações em linguagens de programação Java e Python, conhecimento em redes e dados, além de computação em nuvem, aprendizado de máquina e inteligência artificial (IA) são identificadas em uma parcela cada vez maior das colocações disponíveis", aponta o documento. A procura por atributos nessas áreas chegou a crescer, entre 2023 e 2026, mais de quatro pontos percentuais — caso da categoria de implantação de sistemas em nuvem, que foi de 6% a 10,8%.
Na avaliação de Humberto Moises, diretor de tecnologia para a América Latina da Reckitt Comercial, multinacional de bens de consumo dona demarcas como Vanish e Sustagen, há uma valorização crescente de profissionais ligados à análise de dados, automação e IA. "Ao mesmo tempo, independentemente da especialidade, buscamos pessoas capazes de conectar competência técnica ao contexto do negócio", diz o gestor, na empresa desde junho e no setor de TI há mais de 20 anos.
Moises não revela a projeção de contratações para os próximos meses na companhia, mas dá uma pista sobre a estratégia que será usada nas peneiras. "Estamos sendo bastante seletivos", diz. "Procuramos profissionais que combinem profundidade na sua especialidade, com entendimento de negócio e capacidade de compreender o impacto que a tecnologia pode gerar."
Com passagens por divisões de TI em grupos como Ipiranga e British American Tobacco (BAT), o executivo observa mudanças nas contratações para a área, nos últimos anos.
"O conhecimento técnico continua fundamental e ficou ainda mais importante", analisa. Mas o perfil mais valioso hoje não é nem o "generalista superficial", nem o "especialista extremamente estreito", pondera. "O que ganha força é uma especialização conectada. Alguém com profundidade suficiente para dominar uma área, mas que consegue aplicar o conhecimento a um problema real do negócio."
A distância entre tecnologia e as áreas de negócio diminuiu muito, acrescenta. "E os profissionais que conseguem transitar bem entre esses dois mundos se tornaram extremamente valiosos", afirma. "Em muitas funções no nosso setor, não basta saber como construir uma solução, mas entender por que aquilo está sendo feito, onde se encaixa e que problema estamos tentando resolver."
O diretor diz que a agenda de trabalho na companhia abarca diferentes frentes na América Latina, especialmente em áreas como dados, automação, execução de vendas e IA. "Uma delas é um programa de transformação que busca organizar e conectar melhor os dados que produzimos para apoiar decisões mais rápidas", explica.
Fabíola Marchiori, CTO da fintech Neon, diz que o maior foco nas seleções é em profissionais seniores, como especialistas e engenheiros. "Essa 'seniorização' nos cargos faz parte da estratégia de TI da empresa e reflete uma mudança no mercado", explica ela, que já passou por corporações como Nubank e Itaú Unibanco. "Buscamos mais repertório [nos candidatos]."
A Neon tinha cerca de 30 vagas abertas para o departamentode TI no final de setembro e a expectativa de Marchiori é contratar mais de 40 profissionais até o fim do ano. "À medida que simplificamos a nossa estrutura, reduzimos camadas de gerenciamento e aumentamos o nível de 'ownership' ["mentalidade de dono"] nas equipes", justifica. "Cada profissional precisa ter mais capacidade de decisão e responsabilidade pelos resultados."
Marchiori, que chegou à companhia em fevereiro e respondepor uma divisão com 396 profissionais de nichos como engenharia de software,cibersegurança e IA, diz que na hora de convocar um novo membro para o timeexamina um combo de qualidades.
"Principalmente uma combinação de excelência técnica, pensamento crítico e capacidade de lidar com a 'ambiguidade'", detalha. Nos serviços financeiros, o problema raramente chega pronto, destaca. "É preciso entender a necessidade do cliente. Separar o 'sintoma da causa', fazeras perguntas certas e construir a solução adequada."
Em 2026, até setembro, a área de TI da Neon contratou 112 profissionais. Na opinião da CTO, a experiência no setor continua um critério de peso para selecionar currículos, mas mais importante do que contar os anos de batente dos candidatos é entender a "densidade da experiência".
"Quero saber os problemas complexos que aquela pessoa enfrentou e o que aprendeu", elabora. Uma passagem mais curta por uma empresa não significa uma vivência menos relevante, pondera. "O que importa é o repertório acumulado e a capacidade de transformar experiência em melhores decisões. Procuro sinais de aprendizado."
A executiva alerta que saber trabalhar com IA está se tornando uma competência cada vez mais crítica nas admissões. "Mas não queremos simplesmente saber se o candidato consegue utilizar a ferramenta", destaca. "O interesse é entender como ele pensa com a IA. Analisamos a capacidade de formular problemas e tomar a decisão final."
Fábio Stein, CTO da EVEO, do setor de data centers, concorda com Marchiori e diz que a IA já automatiza atividades que antes demandavam horas de trabalho das equipes de TI. "Nesse cenário, o conhecimento que sustenta uma carreira de longo prazo não é necessariamente o domínio de uma plataforma específica, mas o dom de aprender, desaprender e se adaptar", sustenta. "A tecnologia que um profissional domina hoje pode perder relevância em pouco tempo."
Há alguns anos, diz ele, ter uma certificação técnica no currículo poderia ser um grande diferencial. "Hoje, queremos profissionais capazes de aprender a próxima inovação que virá", diz o executivo, no posto desde fevereiro.
Stein lidera 90 pessoas e deve admitir mais 16 até dezembro. Em 2026, foram 61 aquisições até setembro. "Valorizo cada vez mais nos candidatos a autonomia e a atitude de não ficar esperando uma demanda chegar, mas de propor soluções", revela. A boa comunicação e um comportamento proativo conquistam prestígio no ambiente de trabalho, aponta. "O profissional de TI precisa conversar com as outras áreas da empresa e 'traduzir' questões técnicas. Gosto de quem não pensa apenas que 'a minha parte está pronta', mas que se sinta responsável pelo resultado final."
Matéria completa em: Valor Econômico

